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4 indicadores que o Brasil não tem sobre a pandemia

Publicado por Site da Segurança

É consenso de especialistas ao redor do mundo que, por causa da subnotificação, o número real de casos e mortes de Covid-19, a doença causada pelo coronavírus, são bem maiores do que apontam as estatísticas oficiais. Ao mesmo tempo, o entendimento geral é que países como Itália e Espanha provavelmente já passaram pelo pior da pandemia.

Mas como é possível assegurar isso? Quais informações são necessárias para entender uma pandemia? Que conclusões os estudos permitem obter?

G1 conversou com médicos e cientistas para destacar alguns dados que ainda não temos sobre a pandemia de Covid-19 – principalmente no Brasil. Os pesquisadores falaram também sobre como esses elementos poderiam ajudar a entender melhor o avanço da doença no país.

  1. Número de casos
  2. Número de mortes
  3. Níveis de imunidade para o vírus
  4. Disseminação nas periferia

1. Número (real) de casos

  • Por que não sabemos?

Porque não testamos todos os casos: basicamente, só faz o teste quem é internado e/ou morre, ou seja: os pacientes mais graves da doença. Quem tem sintomas leves ou mesmo não tem sintomas não é testado – e as estimativas dos cientistas, até agora, é de que 80% dos casos de Covid-19 sejam de pacientes assintomáticos ou com sintomas leves.

  • Podemos saber?

Segundo os especialistas, não. Um dos motivos é justamente o fato de que a vasta maioria dos pacientes não têm sintomas da doença. Mas não é só isso: mesmo para pacientes com sintomas, faltam testes diagnósticos e capacidade de análise dos laboratórios, o que aumenta o tempo de espera pelos resultados.

Para Paulo Lotufo, epidemiologista da Faculdade de Medicina da USP, o método inicial de rastreamento de casos, inclusive na Organização Mundial de Saúde (OMS), foi equivocado.

“O raciocínio foi como se estivesse tendo uma epidemia de meningite – que tem um número menor de casos, não existem assintomáticos e o diagnóstico é rápido, são os casos confirmados. Mas não é isso”, explica Lotufo. “A gente nunca vai saber quantos casos existem. Não dá.”

Pedro Hallal, epidemiologista e reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Rio Grande do Sul, concorda. “A OMS subestimou o potencial da doença. Houve uma falta de percepção de que essa doença [se] transmitia principalmente pelos assintomáticos, então se pensou ‘a gente restringe a circulação do vírus e mata’. Mas tem a estimativa de que 80, 90% dos casos são assintomáticos. As pessoas não sabiam que tinham a doença, então transmitiam”, lembra.

Desde o início da pandemia, a OMS vem reiterando que é necessário testar todos os pacientes, isolar, tratar e traçar os contatos de todos os casos. (Os testes a que a organização se refere são os do tipo PCR, que detectam o DNA do vírus no corpo e são mais sofisticados. São diferentes dos testes sorológicos, que detectam anticorpos).

2. Número (real) de mortes

  • Por que não sabemos?

Por causa da subnotificação. (Veja vídeo, mais abaixo, de reportagem do Jornal Nacional). E ela ocorre por dois motivos, segundo os especialistas ouvidos pelo G1:

  • existem pessoas morrendo de Covid cujas certidões de óbito apresentam outra causa para a morte (por exemplo, insuficiência respiratória, pneumonia ou síndrome respiratória aguda grave, conhecida como SRAG), porque elas não foram testadas;
  • existem pessoas que morrem de Covid e que foram testadas para a doença, mas os resultados demoram a sair, e, por isso, as mortes são notificadas com atraso.

Por causa dessa demora, explica Domingos Alves, é comum que o número de mortes divulgado em um determinado dia seja referente, na verdade, a uma ou duas semanas antes daquela data.

“As pessoas têm que entender que esses óbitos aconteceram há, no mínimo, uma semana atrás. Ou duas. Então, quando eu estou olhando o número total de óbitos, hoje, é o que está esperando [o resultado do teste] há no mínimo uma semana atrás. Porque essa é a demora média que tem entre o cara ser internado, ir a óbito e sair o exame”, explica.

Isso dificulta saber em que ponto estamos da curva de disseminação do vírus, afirma Paulo Lotufo. Ele defende que os resultados dos exames sejam colocados em uma “linha do tempo” de acordo com a data de óbito da pessoa, e não 

Já os pacientes que morrem e não estão sendo testados aparecem em outras estatísticas. Segundo dados da Fiocruz, o Brasil já tem, neste ano, mais de 5,5 mil mortes por SRAG, número maior que a média registrada entre 2010 e 2019.

“Existe uma subnotificação de pessoas que estão indo a óbito por SRAG numa pandemia de Covid, ou seja: está indo na certidão de óbito que ela teve SRAG, quando, na verdade, é Covid”, afirma Domingos Alves.

3. Níveis de imunidade para o vírus

  • Por que não sabemos?

Porque as pesquisas científicas ainda não chegaram a uma conclusão. Não se sabe, por exemplo, por quanto tempo as pessoas que já tiveram o vírus ficam imunes a ele.

Para os vírus da Sars e da Mers, que são da família do Sars-CoV-2 (nome do novo coronavírus), já houve estudos, isolados, que apontavam imunidade de anos, afirma Natália Pasternak, bióloga especialista em microbiologia e presidente do Instituto Questão de Ciência.

Por outro lado, os vírus que causam os resfriados também são da família dos coronavírus. E, para esses, a imunidade humana dura apenas alguns meses: por isso, é possível se infectar várias vezes pelo mesmo vírus, explica Natália.

“É provável que a gente tenha imunidade e que ela dure pelo menos alguns meses ou um ano, pelo menos. E com isso a gente vai ganhar tempo”, diz.

Por não sabermos quanto tempo dura a imunidade para a Covid-19 é que é difícil estabelecer os chamados “passaportes de imunidade”, ideia lançada em países como Itália e Alemanha. Com esses “passaportes”, pessoas que apresentassem anticorpos (defesas do corpo) para o vírus, por meio de exames sorológicos, poderiam retomar suas atividades.

Outra questão, que também envolve a imunidade, é a das vacinas, lembra Natália. Como não existe uma vacina para a Covid-19, não sabemos, também, o quanto de proteção elas vão oferecer. Se elas precisarem ser aplicadas mais de uma vez, por exemplo, isso implica mais trabalho ainda na produção e distribuição delas.

“A gente tem vacinas que estão na frente na corrida, já estão sendo testadas em humanos, mas não necessariamente elas vão ser as melhores vacinas. Elas só são as primeiras”, explica Natália.

“Então o quanto de proteção a vacina vai oferecer, como a gente vai fazer para produzir em larga escala, vai ter que vacinar 7 bilhões de pessoas, como é que faz? Tem muita coisa que a gente não sabe”, diz.

Um outro ponto, ainda relacionado à imunidade, é que não sabemos quantas pessoas já foram infectadas sem apresentar sintomas e podem, portanto, contribuir para a chamada “imunidade de rebanho”.

O termo se refere à proteção indireta contra uma doença infectocontagiosa que ocorre quando uma população se torna imune a ela, ou por vacinação ou por já ter sido contaminada. Uma vez que essa imunidade de rebanho tenha sido estabelecida por um tempo, a capacidade da doença de se espalhar é diminuída.

Mas estudos feitos em outros países apontam que a percentagem de pessoas que já foram infectadas com a Covid-19 ainda é muito baixa para que se possa apostar na imunidade de rebanho como uma forma de contenção do vírus.

4. Disseminação nas periferias

  • Por que não sabemos?

Porque é possível que os dados não existam, afirmam especialistas ouvidos pelo G1.

“Em relação à disseminação da doença em favelas, os modelos epidemiológicos existentes têm dificuldade para lidar com isso. Você não ter água, não ter saneamento básico é um complicador adicional quando tem uma doença que depende de higienização das mãos, de forma geral. A gente não tem nenhum documento sistemático sobre isso”, explica.

Alguns levantamentos já apontam a relação entre morar em periferias e maior risco de morte pela Covid. Em São Paulo, dados da Prefeitura do final de abril mostram que, nos bairros mais pobres da cidade, a chance de morrer por Covid-19 é 10 vezes maior.

Em Recife, segundo Dalson Figueiredo, da UFPE, a relação também se sustenta.

“O que os resultados preliminares de estudos existentes indicam é que, quanto maior a vulnerabilidade social, maior a letalidade da doença. Em bairros mais vulneráveis, a chance de morrer é maior”, afirma Dalson Figueiredo.

Fonte: G1

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