Opinião do Especialista

Quando o erro policial vira tragédia (Milton Corrêa)

Publicado por Milton Corrêa

Mais uma tragédia ocorre no contexto da guerra urbana do Rio. Cinco jovens morreram na Zona Norte, na noite de sábado, 28/11, baleados no interior de um carro, durante uma intervenção policial. Não se sabe ainda as circunstâncias do fato. A investigação e a apuração dirão o que houve. Caso caracterizado o erro de avaliação policial durante a abordagem e o uso desproporcional da força, fica evidenciado que a ansiedade e a precipitação continuam, por vezes, prevalecendo no comportamento de policiais na guerra do Rio.

Sabe-se que a profissão policial, de altíssimo risco e complexidade, lida com a vida de seres humanos, o maior bem tutelado. Errar em ação de serviço é um ato possível e o estresse é uma danosa consequência da natureza da função, quanto mais num contexto de violenta guerra urbana que o policial enfrenta e que lhe acarreta problemas psicológicos consequentes, entre  os quais a ansiedade e a vulnerabilidade ante a possibilidade real de um confronto bélico futuro, num teatro de operações onde o inimigo não está identificado e ainda faz uso do elemento surpresa.

Só que o erro fatal  numa intervenção policial não possibilita que vidas ressuscitem. Tal e qual no exercício regular da função de médico o erro fatal não pode ser reparado. A única possibilidade de reduzir o erro na função policial, durante as abordagens, é a constância nos exercícios de reciclagem para aprimoramento técnico e o extremo cuidado no uso da arma. A opção de matar para não morrer só existe para o policial em situação extrema onde sua vida ou a de concidadãos encontra-se em iminente risco. Os tiros que mataram estes cinco jovens e enlutou suas famílias também trarão, doravante, consequências para a vida dos policiais e seus familiares.

A busca pelo erro zero tem que ser, portanto, meta constante na atividade policial. Vidas humanas não ressuscitam. Fica aqui o ensinamento de que a profissão policial se sustenta em quatro pilares básicos: técnica, equilíbrio emocional, uso proporcional da força e respeito aos limites da lei. O excesso policial muitas vezes encerra carreiras e ceifa preciosas vidas, lamentavelmente.

Sobre o autor

Milton Corrêa

Milton Corrêa da Costa:
Tenente coronel reformado da PM do Rio de Janeiro
Ex-aluno do Colégio Militar do Rio de Janeiro (CMRJ).
Ex-chefe da assessoria técnica e parlamentar da Secretaria de Segurança Pública (1996 a 1998)
Primeiro lugar no Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais da PMERJ (1986)
Primeiro lugar no Curso Superior de Polícia Militar da PMERJ (1994)
Ex- Instrutor da Escola de Formação de Oficias da PMERJ (1987 a 1992)

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