Opinião do Especialista

Kombato, uma luta 100% brasileira

Publicado por Paulo Albuquerque

“Não vai doer”, me diz o mestre. Está todo mundo me olhando. Esperam minha reação. Nego, não vou. Há mais insistência, todos me encaram com meio sorriso. Tento recusar, mas a pressão é grande. Aceito. Colocam na minha cabeça uma máscara branca de esgrima um tanto puída e alguém a aperta para deixá-la mais firme. Minha visão fica prejudicada pela cerca cinza mas consigo ver as paredes amarelas daquela sala na Tijuca, bairro da zona norte do Rio de Janeiro.

O mestre se aproxima, para bem na minha frente, uns 40 centímetros de distância, e diz: “Confia em mim”. Com a mão direita segura um bastão de plástico duas vezes o tamanho de um cabide. Ergue o braço e PAH!, PAH!, PAH!, acerta três vezes aquele troço na minha cabeça. O som é alto, a adrenalina também, mas, de fato, não doeu. Paulo Albuquerque, o homem que desferiu os golpes, estava testando uma das técnicas do sistema de proteção pessoal e combate que ele mesmo criou — o Kombato.

Nascido em Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, Paulo deu algumas voltas antes de criar o que ele chama de ciência de proteção. O pai, de quem herdou o nome, foi campeão carioca de boxe amador — peso mosca — e o motivou a treinar desde cedo. Pairava sobre a família a sombra do assassinato a tiros do avô. Paulo tem 49 anos. Aos cinco aprendeu algumas técnicas com pai; aos oito treinava jiu-jitsu no Rio. Com nove, aprendeu a atirar. Aos 46, começou o processo de conversão ao judaísmo.

A fase o marcou por dois motivos: seu mestre chamava meninos de rua para brigar com seus alunos, o que lhe deu uma noção realista de luta. Também experimentou uma sensação de insegurança: um homem mais velho o atacou na rua, mas, por sorte, Paulo conseguiu fugir. “A partir desse evento, acabou a minha ilusão infantil e ingênua de segurança”, declarou em uma entrevista ao blog Força & Luta.

Paulo treinou diversas artes marciais até que, com 18 anos, participou de um seminário com o americano Tuhon Paul Greg Alland, que demonstrou a técnicas do Kali, uma arte marcial filipina que se destaca por ensinar técnicas com facas e ter aparecido em algumas coreografias dos filmes da série Jason Bourne. Encantado, cinco anos depois, em 1991, ele foi trabalhar com tradução de quadrinhos em Nova York, nos EUA, onde rastreou e treinou com Alland. Nesse período, ele já vinha estudando sobre como desenvolver seu próprio método.

Oito anos mais tarde, após trabalhar como analista de sistemas e dar treinamento de Kali para a segurança da Rede Globo, Paulo criou e registrou o Kombato como marca em 1999. Nem arte marcial nem sistema de defesa, o Kombato, segundo seu criador, é uma ciência de proteção, cujo objetivo é enfrentar os perigos da rua, do mundo real. “É para segurança, não é para virar herói”. A vantagem de registrar sua criação como marca é que ele tornou a prática única e indivisível — o sectarismo que encontramos na religião e na esquerda também são comuns no mundas das lutas. Além disso,  o Kombato possui uma metodologia de graduação própria: “é tipo curso de inglês. O cara sabe quando entrar que em dois anos pode virar instrutor e em cinco, faixa preta”.

No centro do tatame, o “laboratório do Kombato”, quem comanda os exercícios é o ex-militar Richard Clarke, o segundo na hierarquia do método. As aulas em geral têm uma hora de duração e seguem uma estrutura definida em quatro partes: treinamento de força e explosão com um método russo, ensino de alguma técnica de luta, prática e exercícios físicos de impacto. O ex-analista de sistemas apenas observa e sugere o que deve ser feito. Todos o chamam de “mestre”.

Um dos exercícios apresentados é o de um IVAN, uma das muitas siglas que o Kombato usa, que significa Inimigo de Maior Volume Armado ou Número. Algumas outras são RODA (Ronda Visual, Observação, Decisão, Ação) ou A3 (Antecipar Ataque do Adversário). No IVAN, uma pessoa fica de olhos fechados no centro de uma roda formada por outras pessoas. Ela então é atacada por um de cada vez de qualquer ponto e precisa executar os golpes e defesas que aprendeu. “Na rua, o cara te empurra de qualquer direção”, me disse Paulo.

Obviamente, há um limite para o quão real pode ser o treinamento de um sistema de defesa no qual os membros do grupo têm que trabalhar no outro dia. As facas usadas nos exercícios são de borracha e as armas, de plástico. Não é real, nunca vai ser — ainda bem. Funciona socialmente porque é um ambiente controlado, porque não dá pra chegar arrebentado em casa.

Há exercícios com facas também. O próprio Paulo faz a demonstração com um aluno. Para um leigo que observa de fora não faz muito sentido, mas cada movimento tem uma razão dentro de um sistema que se equilibra em ataques e contra-ataques que podem ser usados em diferentes situações. E como as situações mudam, os movimentos também. Paulo defende com força este ponto do Kombato: ele é dinâmico e não tem a necessidade de ficar cristalizado por causa de uma tradição. Como não há competições e é feito para o mundo real, também não há regras estritas — o importante é sobreviver.

O instrutor Daniel Coutinho, que treina desde 1999, contou que uma vez teve um problema na entrada de uma festa. Seus amigos já estavam dentro e precisavam de ajuda. Ele tentou entrar, mas foi barrado: “O cara me segurou com um abraço de urso. Daí eu dei um grito bem forte no ouvido dele. Funcionou porque foi inesperado e deixou o sujeito desequilibrado. O grito é uma das saídas do Kombato”. Ele queria testar comigo, mas novamente eu neguei. Tirou do bolso uma faca e me disse: “Olha, ela é tua se eu gritar alto demais”. Continuei negando.

Paulo tem hoje 64 alunos na academia da Tijuca, espaço que administra. Sua maior fonte de renda, contudo, são as aulas corporativas para diversos tipos de forças de segurança. Para o futuro, ele trabalha para expandir o Kombato por meio de um sistema de licenciamento da marca. No Rio, é oferecido em 21 lugares. Pelo Brasil, está presente em pelo menos seis Estados. “Em breve, estaremos até em Miami”, disse o criador. Paulo, por fim, resumiu a finalidade mais importante do Kombato e, talvez, o motor de sua expansão: “É para quem quer chegar vivo em casa e proteger a sua família”.

Sobre o autor

Paulo Albuquerque

Meste Paulo estudou diversas artes, mas notou que faltava um elemento importante, as armas. Em 1986, viu pela primeira vez Greg Alland, em passagem pelo Brasil, ministrando uma demonstração. Decidiu então que iria dominar esta técnica. Foi aos Estados Unidos da América atrás de mais conhecimento e desde 1995, ensina combate com facas no Brasil, sendo o pioneiro e grande especialista no assunto. Depois de ser o primeiro graduado em Pekiti Tirsia no Brasil, uma escola de Kali, continuou se aperfeiçoando e estudando outras lutas e técnicas. Refletindo sobre a aplicabilidade das técnicas, decidiu tratar o assunto de forma matemática, testando com sucessos e fracassos cada uma delas, em situações e testes os mais reais possíveis. Destes conflitos quase reais, herdou algumas cicatrizes. Sua metodologia foi tratar o assunto de forma científica, usando estatística. Aos 21 anos fundou o Kombato e foi pesquisando até 1998 quando começou a ensinar Kali e defesa pessoal na rede Globo de televisão (onde está até hoje), e aprendeu muito sobre segurança.

Para aperfeiçoar a técnica, Mestre Paulo Albuquerque trocou conhecimento com lutadores e especialistas de segurança de diversos países: americanos, russos, israelenses, alemães, dinamarqueses, japoneses. Visitou e entrevistou diversos profissionais da área para agregar suas vivências, visitando até mesmo presídios, para tornar o Kombato o mais eficaz possível.

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