Opinião do Especialista

A realidade do treinamento na segurança (Paulo Albuquerque)

Publicado por Paulo Albuquerque

Desde 1999, desenvolvo tácticas e estratégias de autodefesa e segurança, sempre objetivando a realidade do Brasil. Chamo isso de “Ciência da proteção”.

No entanto, um fenômeno se tornou claro. Em um ano de atividade, minha academia tinha 30% de policiais, e uma percentagem de militares e seguranças que somados chegam quase a 50% da academia. É claro que isso demonstra uma necessidade não atendida nas corporações.

A população civil espera que policiais sejam todos “Jason Bourne”; isso se deve à expectativa que policiais devam nos proteger, e são pagos para isso. Mas este desejo da população está longe da realidade do treinamento policial.

Vamos começar a fazer uma comparação com um conceito básico. Por melhor que seja um treinamento e por melhor que sejam os alunos, existem duas coisas que são necessárias:

  1. Treinamento inicial de qualidade,
  2. Reciclagens constantes.

Quantas horas são necessárias para aprender a jogar futebol? Será que 13 partidas, ou seja, mais ou menos 20 horas bastariam? Claro que a resposta é “não”.

E xadrez? Para ser um bom jogador, que tal 20 horas? Impossível se aprender a jogar bem em 20 horas. Sinuca? Direito? Ping-pong? Na verdade existem poucas coisas, além do conhecido jogo da velha, ou usar o controle remoto da tv, que sejam possíveis dar habilidade a alguém em 20 horas.

Pois é, isso é um ponto pacífico. Todos concordam com essa premissa. Em 20 horas não se aprende nada.

Alguém sabe me dizer quantas horas um policial civil treina autodefesa em sua admissão? 20 horas. E só. Por melhor que seja o instrutor, em 20 horas nada se aprende.

Bem, então ele deve ter muitas reciclagens, certo?

Não, absolutamente nenhuma.

Assim, se ele não é bem treinado em defesa pessoal, a única saída é apelar para a arma de fogo o tempo todo. O que não seria o ideal. Mas então é claro que ele treina bastante tiro, certo?

Não. Só treina um dia, cerca de 100 tiros quando a escola de polícia permite isso, mas é mais comum darem 25 tiros. E também não tem reciclagem.

Então como ele aprende a usar o fuzil e etc?

Ele paga do próprio bolso e faz cursos externos. E quando ele quer aprender autodefesa? Ele mesmo vai procurar especialização.

Corporações militares tem mais constância no treinamento, mas geralmente de artes marciais tradicionais, tendo que aprender os nomes em línguas orientais, e raramente trazendo as situações aprendidas para os cenários reais que vão enfrentar.

Por fim, muitos policiais militares vão para as ruas sem dar um só tiro de fuzil no treinamento, porém com este na bandoleira, pendurado no ombro.

Como se pode exigir qualidade no trabalho de um policial se não o qualificam da forma adequada? Este é um ponto que deve ser pesado pelas autoridades competentes, antes que tenhamos um número de policiais grande e menos qualificado.

Sobre o autor

Paulo Albuquerque

Meste Paulo estudou diversas artes, mas notou que faltava um elemento importante, as armas. Em 1986, viu pela primeira vez Greg Alland, em passagem pelo Brasil, ministrando uma demonstração. Decidiu então que iria dominar esta técnica. Foi aos Estados Unidos da América atrás de mais conhecimento e desde 1995, ensina combate com facas no Brasil, sendo o pioneiro e grande especialista no assunto. Depois de ser o primeiro graduado em Pekiti Tirsia no Brasil, uma escola de Kali, continuou se aperfeiçoando e estudando outras lutas e técnicas. Refletindo sobre a aplicabilidade das técnicas, decidiu tratar o assunto de forma matemática, testando com sucessos e fracassos cada uma delas, em situações e testes os mais reais possíveis. Destes conflitos quase reais, herdou algumas cicatrizes. Sua metodologia foi tratar o assunto de forma científica, usando estatística. Aos 21 anos fundou o Kombato e foi pesquisando até 1998 quando começou a ensinar Kali e defesa pessoal na rede Globo de televisão (onde está até hoje), e aprendeu muito sobre segurança.

Para aperfeiçoar a técnica, Mestre Paulo Albuquerque trocou conhecimento com lutadores e especialistas de segurança de diversos países: americanos, russos, israelenses, alemães, dinamarqueses, japoneses. Visitou e entrevistou diversos profissionais da área para agregar suas vivências, visitando até mesmo presídios, para tornar o Kombato o mais eficaz possível.

2 Comentários

  • Sábias palavras e comentários GM Paulo Albuquerque.
    Existe um currículo mínimo do SENASP para ser ensinado pelas Academias de Polícia no Brasil, mas
    nos cursos de defesa pessoal a carga horária é insuficiente e as técnicas estão abaixo da realidade a ser enfrentada pelos policiais. A reciclagem ainda é insuficiente em horas e o período é muito longo, desde a formação do policial. O Kombato veio suprir esta deficiência, tenho alunos de todas as esferas policiais, mas eles pagam do próprio bolso, pois as corporações, quase sempre, não pagam cursos por fora, é raro um investimento governamental.

  • A propósito do artigo ” a realidade do treinamento na segurança” cujo teor subscrevo, permito-me acrescentar alguns comentários.
    Haverá alguma dúvida no sentido de que para ser um profissional todos necessitamos de uma formação específica numa escola? Continuamos há muitas década, a reclamar do baixo nível da nossa educação. Quando enfocamos certas atividades, a questão fica mais complicada. Pode algum pilotar um avião sem habilitação específica, que deve ser renovada de tempos em tempos? Todos sabemos as respostas. E um policial, basta a ele saber ler e escrever? Mas quem é um policial? É apenas mais um membro comum de uma sociedade? A resposta é NÃO. Um policial foi uma pessoa comum, que tiramos do ceio da sociedade, colocamos numa escola específica e, quando dela sai, é um policial, uma pessoa diferente, preparada para uma profissão específica. Esta conotação de especificidade demonstra que o treinamento e preparo deste tipo de profissional, exige uma escola especial. O policial é o profissional preparado para trabalhar no seio da sociedade, da qual continua sendo membro, mas que agora é também seu protetor e, como tal, passa a conhecer meandros desta sociedade que o homem comum não percebe no dia-a-dia. Tem ele, destarte uma função diferenciada de impedir que a desordem se instale na sociedade da qual é agora um vigilante-protetor. Não se trata de uma atividade comum, bem se vê. Para adquirir esta qualidade, este ” policial” necessita de formação que envolve práticas, algumas vezes, violentas, porque a violência é uma das forma de desordem social. Ao policial e somente a ele, a sociedade concede o poder de, em seu nome, combater esta violência, na forma que for necessária. Ora, esta especificação na sua atividade, mostra, desde logo, que a escola que o prepara deverá ter um currículo específico. No início da minha carreira pública fui autoridade policial civil e para tanto cursei uma escola de policia por dois anos. Neste período jamais tive uma aula de defesa pessoal e nunca dei mais de cinquenta tiros. Embora fosse destinado a chefiar uma dependência policial, pela natureza da minha função, jamais tive uma aula sobre administração policial. Tenho ciência de que este curso chegou a ser ministrado em quarenta e cinco dias. A base de uma organização policial não está no seu armamento, na sua direção, nos seus prédios nem nas suas viaturas. Está na sua ESCOLA e no que ela ensinar. Lidar com armas é obviamente fundamental nesta formação. Aprender quando atirar e quando NÃO atirar.

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